A celebração do dia da mulher remete-nos para o enaltecimento e o seu contrário, para a celebridade e o anonimato, para a magnificência e para a insignificância, mas, sobretudo para a necessidade de lembrar ao mundo a sua importância na família, em todos os atos da vida social, em todas as lutas por uma igualdade, ainda hoje negada pela burka que a oculta e lhe retira o direito de existir e por tantos outros atos de segregação, que, de tão comuns, passam, quantas vezes despercebidos, numa sociedade que afirma defender os direitos do Homem.
Por que não os direitos do ser humano? Uma tradição enraizada numa mentalidade de liderança e superioridade masculinas, ao longo de séculos, tem relegado para segundo plano a importância do papel da mulher em todos os atos da vida social, económica, política, nas artes.
A supremacia masculina exibe-se, ainda nos dias de hoje, como a naturalidade dos seres superiores. Desde as sufragistas à atualidade, que a luta da mulher pela igualdade de direitos tem sido uma constante e muito se tem evoluído nesse sentido. De facto, a mulher, nomeadamente no mundo ocidental, adquiriu patamares jamais imaginados pelas subjugadas mulheres puritanas, pelas escravas dos campos de algodão nos Estados Unidos da América, de séculos atrás, pelas donas de casa da família tradicional dos, ainda muito lembrados e recentes, tempos salazaristas. Porém, o caminho é longo, e muito está por alcançar. Sabemos que a História da Humanidade é feita de avanços e recuos e não basta evoluir na ciência e na tecnologia.
É urgente uma transformação maior, sobretudo nas mentalidades. Embora as mulheres estejam conscientes de que podem celebrar, com alegria, os progressos alcançados, assistem, por vezes indefesas, ao recrudescimento da violência sobre as mulheres, ainda no namoro, ao seu assassinato frequente no seio das famílias, à negação camuflada, da igualdade de acesso a carreiras profissionais, políticas e económicas, à violação das mulheres em tempos de guerra, à barbárie da morte por apedrejamento.
É com estupefação que se observa, que a mulher continua a ser vítima de exploração sexual.
A capa de revista colorida de moda, de insignificantes acontecimentos da alta sociedade, aprimora-se na exposição, por vezes indecorosa, da mulher que se expõe para deleite. É tão constante, que já nem damos por isso, mas está lá.
Todavia, é cheia de glamour, disfarçada de uma beleza que não enaltece o ser feminino com direito a direitos de dignidade. Em tempos de guerra é usada nas fábricas de material de guerra, é gestora familiar, mãe e pai, enfermeira e médica, voluntária na Cruz Vermelha.
Meritórias todas estas tarefas a enobrecem, mas quando é que a sociedade estará preparada para o entendimento da existência da mulher na sociedade, enquanto parte integrante e igual? Tal como na paz e na guerra, nunca o ser humano pode baixar os braços e deixar-se embalar pelo que adquiriu. Há sempre que estar alerta e preparar-se para o ressurgimento do lado negro do ser humano.
Assim, a mulher não deve ser incauta e estar atenta às sirenes que, sem que se espere, gritam o medo e recomendam a proteção no bunker. É urgente que as sirenes toquem, sim, para recordarem à mulher que o seu lugar de igualdade não se conquista no bunker, mas cá fora, no dia-a-dia, nas batalhas, aparentemente, mais insignificantes da vida.
Quando se poderá afirmar, com convicção, que a mulher constitui, de facto a outra metade da humanidade? Porém, celebre-se cada dia, como se fosse o primeiro da sua inteira liberdade, da sua individuação consciente, da sua individualidade permanente.

Maria Celeste Cantante
Dia Internacional da Mulher
8 de Março de 2022

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